Checagem #02
“Sem evidência” contra a Cochrane
Em dezembro de 2023, a Anvisa afirmou que o cigarro eletrônico não ajuda a parar de fumar. Um ano antes, a revisão de maior peso da área já tinha concluído o contrário, com certeza alta. Ela foi descartada com uma frase.
O que disseram
Anvisa, Voto nº 459/2023
Diretoria Colegiada, 04/12/2023, resumindo o relatório de impacto regulatório
“[Os dispositivos eletrônicos para fumar] não apresentam evidências que os indiquem como produtos que possam ser utilizados para cessação do tabagismo.”
GGTAB, área técnica da Anvisa
Apresentação à Diretoria Colegiada, 01/12/2023
“Nenhum tipo de DEF é útil para a cessação ou tratamento do tabagismo.”
Como a Cochrane foi descartada
A Anvisa conhecia a revisão. E escolheu outra.
Ao descrever a política do Reino Unido, o voto reconhece que ela se baseia na Cochrane e acrescenta:
“[…] baseados nas evidências dos serviços de saúde e na revisão da Cochrane Collaboration […], aqui faço um destaque, mesmo não havendo na comunidade científica evidências conclusivas sobre isso.”
Em seguida, o voto adota uma revisão feita para o governo irlandês, que não viu “diferenças claras” entre o vape e a reposição de nicotina. Nenhuma linha explica por que essa revisão deveria valer mais que a Cochrane.
O que a fonte diz
Cochrane
Revisão sistemática viva, atualização de novembro de 2025
Com certeza alta, o vape com nicotina ajuda mais a parar de fumar do que adesivos e gomas.
104 estudos, 30.366 participantes. Risco relativo de 1,55 (IC 95% 1,28 a 1,88) contra a reposição de nicotina. Sem diferença clara em efeitos adversos.
Em cada 100 pessoas que tentam parar
A ordem dos fatos
nov/2022
A Cochrane passa a classificar como de certeza alta a evidência de que o vape ajuda mais que a reposição de nicotina.
dez/2023
A Anvisa afirma que os produtos “não apresentam evidências” para parar de fumar e mantém a proibição.
2024
O tabagismo no Brasil sobe de 9,3% para 11,6%, a primeira alta desde 2007.
nov/2025
Nova atualização da Cochrane, com 104 estudos, mantém a certeza alta.
Por que isso importa
A Anvisa não é obrigada a concordar com a Cochrane. Mas descartar a revisão de maior peso da área com uma frase, sem contra-análise, não é ciência regulatória.
Quem paga é o fumante que já tentou adesivo e goma e não conseguiu parar. A ferramenta que funciona melhor para ele foi declarada inexistente.
O que não estamos dizendo
Não estamos dizendo que o vape é inofensivo, nem que serve para todo mundo. A própria Cochrane aponta que os efeitos de longo prazo ainda têm incerteza. Estamos dizendo que a evidência de que ele ajuda a parar de fumar existe, tem certeza alta e foi ignorada.
Fontes
Cochrane — Electronic cigarettes for smoking cessation, briefing CEBM/Oxford (atualização de nov/2025) Universidade de Oxford — Latest Cochrane review finds high certainty evidence nicotine e-cigarettes are more effective than traditional NRT (17/11/2022)Anvisa — Voto nº 459/2023, processo 25351.911221/2019-74
Anvisa/GGTAB — Processo Regulatório dos DEF, apresentação na 19ª Reunião Ordinária Pública (01/12/2023)
Ministério da Saúde, Vigitel 2024, via Futuro da Saúde (jun/2025)