Checagem #01
EVALI: a causa que sumiu
Em 2020, o CDC identificou a causa do surto de lesão pulmonar nos Estados Unidos. Cinco anos depois, a orientação oficial brasileira ainda não a menciona.
O que a fonte diz
CDC, Estados Unidos
Atualização final do surto, fevereiro de 2020
“Vitamin E acetate is strongly linked to the EVALI outbreak.”
O acetato de vitamina E está fortemente ligado ao surto de EVALI.
THC
A maioria dos casos envolveu produtos com THC, “particularly from informal sources” (sobretudo de fontes informais).
78%
dos pacientes compraram os produtos apenas em fontes informais.
Não volte ao cigarro
Recomendação final do CDC para adultos que trocaram o cigarro pelo vape de nicotina.
O que disseram no Brasil
Cinco documentos oficiais. Nenhum menciona THC ou vitamina E.
jun/2025
Nota Técnica Conjunta 233/2025
Ministério da Saúde, INCA e Anvisa
É a orientação oficial para notificar EVALI no país. O caso clínico de exemplo é de um paciente que usava cannabis e um líquido com nicotina e CBD. A lesão é atribuída ao cigarro eletrônico.
THC OU VITAMINA E: NÃO CITA
fev/2024
Carta de posicionamento
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia
Descreve a EVALI como doença dos cigarros eletrônicos. Na mesma carta, chama de “mito” a ideia de que o vape ajuda a parar de fumar, sem citar estudos sobre cessação.
THC OU VITAMINA E: NÃO CITA
dez/2023
Voto nº 459/2023
Diretoria Colegiada da Anvisa
Cita “2807 internações e 68 mortes” ao falar da “epidemia” de cigarros eletrônicos nos EUA, com link para a mesma página do CDC que aponta a vitamina E.
THC OU VITAMINA E: NÃO CITA
nov/2023
Ofício nº 12/2023
Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, anexado ao voto
Cita “danos agudos já conhecidos (Ex; EVALI)” para se opor ao vape inclusive como método para parar de fumar.
THC OU VITAMINA E: NÃO CITA
out/2023
Nota Técnica nº 58/2023
Ministério da Saúde, citada no voto
“Alguns estudos recentes apontam que o uso de DEF pode aumentar o risco de doenças cardíacas e distúrbios pulmonares, como, por exemplo, [...] EVALI.”
THC OU VITAMINA E: NÃO CITA
Por que isso importa
No começo do surto, em 2019, a confusão era compreensível. O CDC investigava todos os produtos e chegou a recomendar que ninguém usasse cigarros eletrônicos até encontrar a causa. Em poucos meses, a investigação chegou a uma resposta: o acetato de vitamina E, usado para diluir óleo de THC em cartuchos do mercado ilícito.
E nem no auge do surto os Estados Unidos proibiram o vape de nicotina. Apertaram as regras: idade mínima de 21 anos (dez/2019), restrição de sabores em cartuchos (jan/2020) e autorização prévia para cada produto.
O que não é compreensível é o Brasil seguir, em 2025, com a dúvida de 2019. O erro tem dois custos. Trata como risco o produto que ajuda fumantes a sair do cigarro. E deixa sem alerta quem usa THC, que precisa saber que o perigo estava no adulterante de um mercado sem controle, não na planta.
A lição da EVALI é a mesma do vape: mercado sem regra adoece. Errar o diagnóstico é errar a política pública.
O que não estamos dizendo
Não estamos dizendo que o critério de diagnóstico brasileiro está errado: a definição de caso do CDC também considera o uso de cigarro eletrônico nos 90 dias anteriores. E não estamos culpando o THC. O uso de cannabis merece um debate responsável, que já acontece no Brasil, ainda que a duras penas. O problema é omitir a causa e, com isso, apontar a política pública para o lugar errado.
Fontes
CDC — Outbreak of Lung Injury Associated with the Use of E-Cigarette, or Vaping, Products (fev/2020) Nota Técnica Conjunta nº 233/2025 — MS, INCA e Anvisa SBPT — Posicionamento quanto aos dispositivos eletrônicos de fumar (fev/2024)Anvisa — Voto nº 459/2023, processo 25351.911221/2019-74 (inclui o Ofício SBOC nº 12/2023 e a NT MS nº 58/2023)
FDA — política sobre cartuchos com sabor (jan/2020), via ASCO Post