O cigarro é legal no Brasil. É tributado, fiscalizado e protegido por lei federal. Mesmo assim, até metade de quem fuma por muito tempo morre por causa dele: são cerca de 174 mil mortes por ano no país, quase 480 por dia.
Quem mata é a combustão. A fumaça do cigarro carrega milhares de substâncias químicas, dezenas delas cancerígenas. A nicotina é o que o fumante procura. Ela causa dependência e não é inocente, mas não é ela que provoca câncer.
Por décadas, falar de nicotina era falar de cigarro. Hoje existem adesivos, gomas, pastilhas, sachês e vapes, e o debate oficial brasileiro ainda discute “o fumo”. Nós queremos discutir a nicotina.
A ciência já fez essa conta. A Cochrane, a maior referência independente em revisão de evidências, concluiu com certeza alta que o vape com nicotina ajuda mais a parar de fumar do que os adesivos e gomas oferecidos hoje. O Reino Unido apostou nessa evidência. A Suécia consome nicotina na média europeia, mas em formas que não queimam, e tem a menor taxa de tabagismo e bem menos doenças ligadas ao tabaco que seus vizinhos.
Proibimos tudo, menos o uso.
O Brasil foi para o lado oposto. É proibido fabricar, importar, vender e até trazer um cigarro eletrônico na bagagem. Usar, não: não dá para proibir o consumo de nicotina num país onde o cigarro é legal.
O resultado é uma proibição que, na prática, funciona como liberação total. Não há limite de nicotina nem regra de sabor, embalagem ou formato. Não há idade mínima que se faça cumprir, controle sanitário, imposto ou emprego formal. Há uma cadeia abastecida pelo crime organizado nas fronteiras e nos portos e por produção clandestina dentro do país. Todo cigarro eletrônico em uso no Brasil passou, em algum momento, pela ilegalidade.
Os Estados Unidos fizeram o contrário: regularam. Exigiram autorização prévia, idade mínima de 21 anos e fiscalização no varejo. O uso entre estudantes caiu ao menor nível em mais de uma década. Aqui, a proibição não tirou o produto de circulação. Só tirou o Estado da conversa. E o tabagismo voltou a subir pela primeira vez desde 2007.
Confundir fumar com nicotina custa vidas.
As instituições passaram a tratar como sinônimos fumar e consumir nicotina. Em 2023, a Anvisa concluiu que esses produtos não têm evidências para ajudar a parar de fumar e descartou a Cochrane. No mesmo processo, citou a EVALI como risco dos cigarros eletrônicos sem dizer o que o CDC concluiu: a doença veio de produtos de THC adulterados.
Uma política pública desenhada com essa cegueira não protege ninguém. Ela empurra milhões de pessoas de volta ao produto que mais mata.
Não queremos criar uma cultura de consumo, e muito menos entre jovens: nicotina não é para menores de idade. O Brasil já é um dos maiores produtores de tabaco do mundo. Só não queremos morrer de combustão.
Ninguém precisa adoecer só porque usa nicotina.